21 de março de 2017

O Rito Moderno

Um resumo da história do Rito Moderno

I.História

No ano de 1725, na Inglaterra, aparece o Grau de Mestre. Até então, havia dois Graus, o de Aprendiz Aceito e o de Companheiro do Ofício. O Mestre da Loja era um cargo eletivo, não um Grau.

Com o desenvolvimento do Grau de Mestre, começam a se desenvolver os Graus de Aperfeiçoamento ou a chamada “Alta Maçonaria”. Muitas Lojas os praticam e não há nenhum regulamento em relação a eles. Os mais antigos fazem referência à lenda do Terceiro Grau e ao espírito cavalheiresco.

Em 1728, com o fluxo de imigrantes ingleses e de franceses iniciados em Lojas inglesas, se organiza a primeira instituição maçônica na França, com Lojas formadas em Paris, que, primeiro se chamaria “Grande Loja da França” e em 1773 mudaria seu nome para “Grande Oriente da França”.

Em 1730, na Inglaterra, aparece a publicação da “Maçonaria Dissecada” de Samuel Pritchard. A publicação é um sucesso e as Lojas são frequentemente visitadas por falsos maçons que, tendo obtido o conhecimento das palavras toques e sinais pela obra de Pritchard, se fazem passar por maçons.

Para coibir os abusos, a Grande Loja de Londres resolve modificar uma série de usos e costumes (inversão do pé da marcha, das palavras de Aprendiz e Companheiro). Os Aprendizes passam a ter uma “palavra de passe”. As Lojas francesas da Grande Loja da França acompanham as mudanças de sua Grande Loja mãe. Cada Loja tinha liberdade para fixar seus próprios usos e costumes se atendo a uma estrutura geral.

Com o desenvolvimento descontrolado de diversos sistemas maçônicos, que chegariam a compor 70 ritos diferentes, a situação se torna bastante complicada. Cada Rito instala sua própria instituição e advoga exclusividade e superioridade sobre os demais. Na prática, são várias maçonarias particulares e sem nexo necessário entre si. Desse período podemos lembrar a Ordem dos Sacerdotes Eleitos do Universo (Elus Cohen), da Estrita Observância Templária e do descendente direto desses dois sistemas, ou seja, o Regime Escocês Retificado, entre muitos outros.

Em 1758, é criado o Rito de Perfeição ou de Heredom, com 25 Graus, que constitui o sistema mais longo e bem estruturado de Graus do período.

Os Graus eram praticados nas Lojas sem quaisquer divisões administrativas entre Graus Simbólicos e Graus Filosóficos.

Ao estudarmos essa fase da formação dos ritos, veremos que, de fato, os ritos eram criados por estudiosos e estes autorizavam, de maneira pessoal, a outros Irmãos para que propagassem seu sistema ritualístico e fundassem corpos que o praticassem e difundissem. Isso era feito via “patente”.

Uma patente, em sua definição original, é uma concessão pública, conferida por um Estado a um titular que garante a este a exclusividade para explorar comercialmente a sua criação.

As primeiras patentes das quais se têm notícias são de 1421 em Florença, na Itália. Felippo Brunelleschi inventara um dispositivo para o transporte de mármore e o patenteou. Na Inglaterra, em 1449, John de Utynam recebeu, através de uma patente, o monopólio de 20 anos sobre um processo que inventou para a produção de vitrais.

A primeira lei de regulamentação de patentes tem a data de 1474 em Veneza, surgida pela necessidade de proteger com exclusividade o invento e o inventor, concedendo licença para a exploração, reconhecendo direitos autorais e sugerindo regras para a aplicação no âmbito da produção.

Com base nessa idéia, ou seja, nas PATENTES COMERCIAIS E INDUSTRIAIS, surgiram as primeiras “patentes maçônicas”, que tinham por objetivo proteger a invenção dos criadores dos ritos e dos sistemas.

As patentes eram pessoais e, algumas, eram até hereditariamente herdadas, como um título transmissível para os herdeiros.

Os critérios para a concessão de uma patente referente a um rito ou a um sistema particular de Maçonaria eram dados pelos criadores. As patentes eram cartas de autorização que traziam expressas os poderes dados aos seus portadores.

Os poderes dos criadores, após a morte deles ou quando se formasse um corpo suficientemente grande de praticantes do sistema, eram transferidos a um chefe nomeado sucessor.

Em 1773, devido ao caos instalado pela enormidade de graus praticados sem qualquer regulação, o Grande Oriente da França cria uma comissão dos Altos Graus que permanecerá com uma atividade bastante modesta até 1782, quando será criada a Câmara dos Graus.

Com a criação desta Câmara, o Grande Oriente da França explicita que se ocupará apenas da regulamentação dos Três Primeiros Graus e que não se ocupará mais de outros Graus. Nessa época, começará a formação das “Lojas Capitulares”, trabalhando com relativa independência das Lojas Simbólicas.

Em 1° de Fevereiro de 1782, na 121ª assembléia do Grande Oriente da França, os irmãos constituem a Câmara dos Graus que se reúne para debates em 19 de fevereiro de 1782. Em 5 de março, o Irmão Orador Roëttiers de Montaleau, propõe o estudo de todos os graus existentes praticados na França para que se faça uma síntese dos mais importantes e se crie um sistema ordenado, que contemple toda a filosofia maçônica.

Alexandre Louis Roëttiers de Montaleau

Em 21 de fevereiro de 1783, a Câmara dos Graus apresentará o resultado de uma pesquisa sobre 38 Altos Graus sem nenhum resultado prático.

Em 2 de fevereiro de 1784 é publicada uma circular anunciando que sete Lojas Capitulares Rosa-Cruz se associaram para formar o Grande Capítulo Geral da França.

Esse Capítulo Geral da França, vai analisar 81 Graus diferentes e os resumirá em 5 Ordens que sintetizarão os elementos fundamentais dos ensinamentos e a forma mais tradicional da família de graus que ele representa.

Já na época de formação do Grande Capítulo Geral, depois de se definir que todos os Graus estudados seriam resumidos em 4 Ordens, se estabeleceu uma 5ª Ordem, chamada de “Ilustre e Perfeito Mestre” que seria o Grau Acadêmico e administrativo destinado a conservar e estudar todos os graus e sistemas e que também serviria para administrar o Grande Capítulo Geral.

Em 19 de março de 1784, é publicado o ritual da 1ª Ordem – Eleito Secreto.

Em 18 de dezembro de 1784 é publicado o ritual da 2ª Ordem, Escocês.

Em 19 de Maio de 1785 é publicado o ritual da 3ª Ordem, Cavaleiro do Oriente.

No segundo semestre de 1785, se publica o ritual da 4ª Ordem, Soberano Príncipe Rosa-Cruz.

O Grande Oriente da França e o Grande Capítulo Geral da França entrariam em conflito diversas vezes pelo fato de haver certa confusão em relação à autoridade sobre os Graus e as Lojas.

Em 1786, entrando em um acordo, o Grande Capítulo Geral se submete às condições impostas pelo Grande Oriente da França e, em 1º de Junho de 1787 muda seu nome para “Soberano Capítulo Metropolitano”, deixando ao Grande Oriente da França o poder regulador sobre os três primeiros Graus e se conformando aos critérios de funcionamento do mesmo.

Em 1788, se publica a “Coleção dos três primeiros Graus da Maçonaria no Rito Francês”, que é um dos mais antigos e fiéis documentos sobre o Rito Moderno original.

Em 1789 estoura a Revolução Francesa e há um período de inatividade maçônica por razões óbvias.

Em 1801 surge o “Regulador do Maçom” que estampa as linhas gerais do que é o Rito Moderno e se torna uma referência para as Lojas que trabalham nesse sistema.

O Grande Capítulo Geral ressurge no primeiro império napoleônico (1804-1814) com uma forte concorrência do Supremo Conselho do REAA de Charleston, EUA, estabelecido em 24 de Junho de 1801. Na França, em 27 de outubro de 1804, se estabeleceria a Grande Loja Geral Escocesa da França.

Em 3 de dezembro de 1804, sob ordens de Napoleão, o Grande Oriente da França e a Grande Loja Geral Escocesa são fundidas, semeando imensa confusão. A partir de 1° de Junho de 1820, as Lojas são obrigadas a optar pelo Rito Moderno ou Escocês Antigo e Aceito.

Muitos maçons são levados a optar pelo Rito Escocês Antigo e Aceito pelo fato de que, naquela época, o REAA concedia diretamente o Grau 18, sendo que todos os anteriores eram dados por comunicação. Na prática, isso significava que o irmão iria diretamente para a 4ª Ordem…

No Brasil, a partir da fundação do GOB, em 1822, são praticados os rituais estabelecidos pelo Regulador do Maçom de 1801.

O Rito Moderno é trazido para o Brasil por Irmãos portugueses que receberam os Graus na França. Estabelece-se de maneira livre, assim como se estabeleceu primeiro em Portugal.

Em 1858, na França ocorre a chamada “reforma Murat”, onde a forma dos rituais é alterada e fortemente influenciada pelo REAA.

Os rituais das Ordens de Sabedoria são, na prática, substituídos pelos rituais dos graus 18, 30, 32 e 33. Esse será o início do declínio das Ordens de Sabedoria na França.

O Brasil, um país de cultura altamente influenciado pela França, começa a introduzir elementos do REAA em seus rituais do Rito Moderno.

Em 1877, o Grande Colégio de Ritos do Grande Oriente da França introduz uma nova reforma que se iniciará com objetivos louváveis e terminará por desfigurar as tradições maçônicas do Rito Moderno.

Em 1879, se retiram todas as referências ao Grande Arquiteto do Universo dos rituais e toda e qualquer referência religiosa. Isso levará a uma ruptura com a Maçonaria regular.

Em 1886, Louis Amiable, então Grão-Mestre do Grande Oriente da França, introduz elementos positivistas e socialistas nos rituais.

Os maçons brasileiros, apesar de pertencerem a um Grande Oriente regular, seguem as reformas e começam a retirar de seus rituais as referências religiosas e introduzir idéias positivistas e socialistas nos rituais.

No início do século XX, os rituais do Rito Moderno no Brasil já estão completamente diferentes das fontes originais, tanto pelas influências do REAA da época de reforma “Murat”, tanto pelas influências anti-religiosas, positivistas e socialistas da reforma “Amiable”.

Em 1907, Antoine Blatin reforça a tintura positivista dos rituais e Arthur Groussier, na década de 1930, acrescenta elementos ideológicos marxistas, apesar de retornarem alguns elementos importantes do simbolismo nos rituais.

  1. O número das Ordens, popularmente chamadas de Graus

É muito comum que se escute, entre maçons que se fecham somente em seus próprios ritos, comparações e “sentenças” absolutamente esdrúxulas em relação ao número menor de Graus do Rito Moderno.

Crêem eles que o fato de determinados ritos terem 33 Graus, sob influência direta do Rito Escocês Antigo e Aceito, denota uma superioridade de assuntos, de matérias tratadas e de tempo necessário para entendê-los.

Se estudarmos a história maçônica, veremos que houve ritos com até 120 Graus. Ainda hoje, a Grande Loja Suíça-Alpina pratica o Rito de Memphis-Misraim com 96 Graus e vários Santuários Nacionais (como são chamadas as Potências do Memphis-Misraim) independentes fazem o mesmo.

O Rito Moderno é a síntese de nada menos do que 81 Graus diferentes. Todas as Ordens são conferidas por INICIAÇÃO.

Vejamos o que escreve René Guénon, um dos maiores esoteristas e pensadores tradicionais do século passado:

“sendo a iniciação maçônica essencialmente simbólica, forma maçons que não são nada mais que o símbolo dos verdadeiros maçons. Tal Iniciação traça simplesmente um programa de operações que terão que ser efetuadas para se chegar à Iniciação Real. É a este último objetivo a que tendiam, ao menos originalmente, os diferentes sistemas de Altos Graus que, aparentemente, foram instituídos para realizar na prática a Grande Obra ensinada na teoria pela Maçonaria.

No entanto, é preciso reconhecer que bem poucos desses sistemas alcançavam realmente o fim ao qual se propunham; na maior parte das vezes, acham-se incoerências, lacunas, superstições e alguns rituais são de valor iniciático fraquíssimo, ainda mais se comparados com o dos Graus Simbólicos. Tais defeitos são mais sensíveis quanto maior seja o número de graus em um sistema. Se isso é dessa forma no Escocismo de 25 e 33 Graus, o que se dirá dos Ritos de 90, 97 ou até mesmo 120 Graus? Esta pluralidade de Graus é ainda mais inútil quando são conferidos por séries. No século XVIII, cada um quis inventar seu próprio sistema, sempre enxertando as concepções pessoais do autor sobre a Maçonaria Simbólica, da qual não fazia nada além de desenvolver os princípios fundamentais que eram interpretados a bel prazer, como se vê em quase todos os Ritos Herméticos, Cabalísticos, Filosóficos, nas Ordens Cavalheirescas e de Iluminados. É disso que nasceu, de fato, essa espantosa diversidade de Ritos, dos quais muitos não existiram senão no papel, e dos quais é quase impossível desvendar a história; todos os que tentaram colocar alguma ordem nesse caos, tiveram que renunciar ao seu intento, a não ser que, por um motivo qualquer, tenham preferido dar às origens dos Altos Graus explicações fantasiosas e até mesmo completamente fabulosas.” (Revista “La Gnose”, Maio de 1910)

“os graus intermediários da Iniciação podem ser até mesmo em multiplicidade indefinida, e deve ficar claro que os graus que existem em uma Organização Iniciática não constituem senão uma espécie de classificação mais ou menos genérica e “esquemática”, limitada à consideração de certas etapas principais ou mais claramente definidas, o que, por outro lado, explica a diversidade destas classificações. É também evidente que, mesmo quando uma Organização Iniciática, por uma razão qualquer de “método”, não confere graus claramente diferentes e demarcados por ritos particulares a cada um (dos graus), isso não impede que as mesmas fases (iniciáticas) existam obrigatoriamente para quem esteja vinculado a tal organização, ao menos quando passam à Iniciação Efetiva, pois não há nenhum método que permita alcançar diretamente o Objetivo.” (René Guénon – Revista “Estudos Tradicionais”, setembro de 1950)

            Em outras palavras, número de Graus não quer dizer grande coisa. De fato, há organizações iniciáticas, como certas Ordens Budistas, Taoístas e Sufis, onde não há um sistema de graus diferentes e demarcados por ritos e, nem por isso, as fases iniciáticas deixam de existir.

Os dois Graus da 5a Ordem, 8 e 9, são Graus Administrativos, honoríficos e acadêmicos. Seus portadores devem, portanto, em acordo com o que foi definido ainda no século XVIII, conservar e estudar todos os graus e sistemas, físicos e metafísicos e auxiliar na administração do Rito em geral.

 

III. A Regularidade do Rito Moderno

Para esse tema, mais uma vez citaremos a René Guénon:

“Tem-se escrito tanto sobre a questão da regularidade maçônica, já deram-se tantas definições diferentes e, inclusive, contraditórias, que este problema, longe de estar resolvido, tem, talvez, ficado mais e mais obscuro. Parece-nos que foi mal colocado, pois, freqüentemente, busca-se sempre fundamentar essa regularidade sobre considerações puramente históricas, apoiando-se em provas, verdadeiras ou supostas, de uma transmissão ininterrupta de poderes de uma época mais ou menos recuada; é preciso confessar que, partindo desse ponto de vista, seria fácil encontrar irregularidades na origem de todos os ritos praticados na atualidade. Sendo assim, pensamos que isso tudo está muito longe de ter a importância que alguns quiseram lhe atribuir e que, a verdadeira regularidade está essencialmente na ortodoxia maçônica, e que esta ortodoxia consiste acima de tudo em seguir fielmente a tradição, em conservar cuidadosamente os símbolos e as formas rituais que expressam esta tradição e que constituem sua roupagem, e em rechaçar toda inovação suspeita de modernidade.” (René Guénon – Revista “La Gnose”, abril de 1910)

  1. Conclusão

O Supremo Conselho Filosófico do Rito Moderno do Brasil, através de sua Grande Secretaria de Educação, Cultura e Orientação Ritualística, criada, auxiliada e impulsionada pelo Soberano Grande Inspetor Geral Sérgio Ruas, apresenta aos seus membros a originalidade dos rituais do século XVIII, com adaptações mínimas voltadas aos usos e costumes do Brasil do século XXI.

As partes essenciais dos ritos foram fielmente mantidas. Algumas adaptações se fizeram necessárias para adequar à realidade do século XXI rituais escritos no século XVIII. No entanto, nada de essencial foi alterado.

Nossa maior preocupação e cuidado foi com a conservação do teor iniciático original, sem quaisquer alterações essenciais.

E para não perder o hábito:

“A Tradição não exclui a evolução nem o progresso; os rituais podem e devem ser alterados tantas vezes quanto sejam necessárias para adequar-se às condições variáveis de tempo e de lugar, mas, entenda-se, unicamente à medida em que estas alterações não afetem nenhum aspecto essencial. A mudança nos detalhes do ritual importa pouco desde que o ensinamento iniciático que deles se compreende não sofra nenhuma alteração. A multiplicidade de Ritos não teria graves inconvenientes, talvez até mesmo seria vantajosa se, desgraçadamente, não tivesse muito freqüentemente como conseqüência, servindo de pretexto a lamentáveis cismas entre Potências rivais, o comprometimento da unidade ideal, se quisermos, mas real da Maçonaria universal.” (René Guénon – Revista “La Gnose”, abril de 1910)

Com isso, buscamos o resgate da dimensão tradicional e espiritual do Rito Moderno e a prática correta daquilo que nos legaram nossos maiores.

Irm.˙. André Otávio Assis Muniz

Grande Secretário Geral de Educação, Cultura e Orientação Ritualística. do S.˙.C.˙.F.˙.R.˙.M.˙.B.˙.