6 de abril de 2017

Juramento ou Compromisso?

Juramento ou Compromisso?

Entre maçons praticantes do Rito Moderno é comum se ouvirem discussões empertigadas sobre o emprego dos termos “juramento” ou “compromisso”. Verdadeiros “filósofos”, aditivados de cerveja, pizza, whisky etc., tentam desvendar os motivos, as causas, as sobejas razões pelas quais não se pode, não se deve, não é direito e não faz bem usar o termo ‘juramento’ no Rito Moderno. A discussão, na qual se escoam horas de proposições, réplicas, tréplicas, devaneios teológicos etc. é conduzida como se tal assunto fosse de imensa importância para a Maçonaria em geral, para o Rito Moderno em particular e, quiçá, para todo o futuro da humanidade.

Perdoem-me os leitores se o tom dessas linhas é um tanto sarcástico, mas diante do nível estrambólico de incultura filosófica de quem inventou essa retumbante bobagem, não me resta outra saída. Esse tipo de discussão é o que meu saudoso avô de Minas Gerais chamava de “balangar os beiços”, ou seja, não dizer nada de útil ou importante.

O Rito Moderno, durante décadas, foi dominado por pessoas cuja sabença doutrinal e filosófica estava bem abaixo do desejável e que, tendo em vista o rebanho sobre o qual reinava, era tomada por mui sábia e entendida em todos os aspectos, mesmo dizendo enormidades apedêuticas. Em outras palavras, esse pessoal dizia qualquer bobagem e quase todo mundo repetia sem questionar. Graças a isso se cristalizou o dogma (num grupo que adorava dizer-se “adogmático”, palavra que, tecnicamente, em Filosofia, não significa bulhufas) de que “no Rito Moderno não se faz juramento, se presta compromisso”. Vamos esclarecer de vez isso para que o prezado leitor não seja engazopado e nem deixe ninguém ser.

A palavra “juramento” significa afirmar algo, fazer uma promessa. ‘Eu juro dizer a verdade’, ‘Eu juro que vi a sra. Aretusa quebrando sua dieta’, ‘Eu juro que não fui eu’. Jurar é fazer uma promessa solene. Posso jurar pela minha honra, pela vida dos meus filhos, pela luz que me ilumina, por sobre um livro sagrado ou por qualquer coisa que me vincule a algo tido como sagrado ou muitíssimo importante para mim. Fazemos juramento à bandeira. Classes profissionais, como médicos e advogados, prestam juramento quando são diplomados e isso não tem nada a ver com conceitos religiosos.

Etimologicamente, a palavra juramento vem de ‘iuramentum’, ou seja, “afirmar diante de um juiz” (ius – justiça, are – usado para formar verbos, e o sufixo ‘mento’ – instrumento ou resultado). Trocando em miúdos, fazer um juramento é fazer uma promessa, uma afirmação diante de alguém que aceita essa promessa, figurado como o juiz (aquele que julga e aceita, ou não, a promessa feita). A palavra “compromisso” significa obrigação contraída por meio de promessa ou acordo. Compromisso é a forma de se vincular, assumir uma obrigação com alguém ou com algo, com algum objetivo. A palavra vem de “com promessa” que, por sua vez, vem do latim “compromissus” que é particípio passado de “compromittere” ou “fazer uma promessa mútua”.

Será que é preciso dizer algo mais?

Quem faz um juramento assume um compromisso. PROMETE algo diante de uma testemunha capacitada para aceitar sua afirmação. Juramento ou compromisso são, portanto, e à margem das “doutas discussões”, a mesmíssima coisa.

É impossível não lembrar da frase de Horácio em sua “Ars Poetica”, verso 139: “Parturient montes, nascetur ridiculus mus”, ou seja, “Os montes parirão e nascerá um ridículo camundongo”.

André Otávio Assis Muniz
Grande Secretário Geral de Educação, Cultura e Orientação Ritualística do SCFRMB