Apontamentos sobre questões espirituais da Iniciação

Apontamentos sobre questões espirituais da Iniciação

André Otávio Assis Muniz

 I. Introdução

A Idade Contemporânea é pródiga em seu materialismo e em sua atenção para com os detalhes materiais mais irrelevantes. A “felicidade” e a “realização” são sempre pintadas em termos materiais, financeiros etc. A todos os mais profundos problemas da condição humana são apresentadas soluções econômicas e governamentais mediadas por um ativismo exacerbado, cuja raiz é um tipo de ânsia por “fazer algo” sem que se suspeite que, na verdade, as grandes questões existenciais passam longe dessas “soluções”.

Em geral, o indivíduo atual despreza as grandes questões de natureza espiritual e se concentra em substitutos materiais, protocolares, administrativos, exteriores e profanos (na real acepção da palavra “profano”).

Na Maçonaria não é diferente. Muitos se utilizam de expressões tais como “ritualística”, “regularidade”, “reconhecimento”, “organizações espúrias”, “não reconhecidas”, “irregulares” etc., porém, pouca ou nenhuma atenção se dá às razões últimas desses termos ou aos sinais mais importantes advindos das condições espirituais de uma Iniciação ou de um rito.

Nesses breves apontamentos, tentaremos esclarecer um pouco a questão e chamar a atenção para certas condições e sinais que, em geral, passam despercebidos e que, dessa maneira, acabam transformando os conceitos iniciáticos em um tipo de “burocracia” pseudo-espiritual baseada no colecionismo de cartas, patentes, selos e reconhecimentos.

Ninguém se torna verdadeiramente Iniciado por ter um papel que afirme que o é. Um Centro Iniciático não é uma repartição pública e algumas Organizações Tradicionais, de fato, sequer se revestem das características de uma “Ordem” ou “Sociedade”, no sentido profano do termo, com estatutos, regras escritas, selos, registros, papéis etc.

Julgar a regularidade iniciática de uma Organização Tradicional com base em reconhecimentos institucionais, cargos administrativos ou colecionismo de graus e patentes é o mesmo que tentar aferir a eficácia de um medicamento contra determinada doença simplesmente exibindo o receituário com o carimbo do médico que o prescreveu, sem que, no entanto, se utilize da substância prescrita.

  1. Entendendo a Iniciação

Muitos acreditam que ser “Iniciado” é apenas passar por um cerimonial e, inclusive, se utilizam desse termo para as mais profanas atividades. Creem que qualquer atividade que um indivíduo principie a desenvolver comporta uma “iniciação”. Nada mais longe da realidade.

Iniciação é uma mudança do estado ontológico de um determinado indivíduo. É a abertura para um estado existencial onde, diferente do comum da humanidade, o iniciado se abre para uma dimensão superior, uma dimensão metafísica, intelectual e espiritual (de fato, nesse caso, ambos os termos são intercambiáveis, pois a espiritualidade nada mais é que a intelectualidade pura e verdadeira).

O Iniciado busca a identificação com o Todo, com o Absoluto, em todas as formas e Estados Múltiplos do Ser. Enquanto o religioso está restrito ao Estado Humano e a uma “salvação” individual (salvação essa que é concedida de fora, por algo que é, em essência, diferente do si mesmo), o Iniciado busca a libertação das limitações individuais e a realização da Pura Essência, o aspecto interno do Absoluto onde ele se reconhece. A “individualidade” é então superada e transcendida. O Cosmos, seus aspectos de Criação, Conservação e Destruição, os deuses e a Transcendência estão tanto no exterior quanto no interior. Assim como é acima é também embaixo.

III. As formas de Iniciação

Segundo as fontes tradicionais, há três formas possíveis de Iniciação:

  1. a) A Iniciação inata ou “dignidade natural” – nesse caso, o indivíduo já nasce com essa abertura para uma dimensão superior, manifestando os sinais desde muito cedo. É uma dignidade natural, uma tendência para os aspectos mais profundos e interiores que mostram que aquele indivíduo é de outra “raça” espiritual. A literatura esotérica mostra muitos casos dessa modalidade iniciática.
  2. b) A Iniciação por ruptura existencial – nesse caso, um determinado indivíduo, qualificado para receber a Iniciação, passa por uma experiência traumática intensa, uma ruptura existencial que propicia uma fratura interior que, não tendo logrado destruir completamente o indivíduo (até fisicamente em alguns casos), opera uma transformação interior e o faz “renascer” como alguém que está aberto à dimensão superior da existência, à realidade Absoluta e Metafísica. Aqui, a compreensão dos aspectos teóricos da Iniciação dependerá dos esforços pessoais e o nível de Iniciação dependerá de um constante “pôr-se à prova” com todos os desdobramentos que isso comporta.
  3. c) A Iniciação por enxertia – esse é o caso mais comum. Um determinado indivíduo qualificado para receber a Iniciação se junta a uma Organização Tradicional que, por meio do ritual, transfere a ele uma Influência Espiritual da qual é guardiã. Essa Influência Espiritual é uma “Iniciação Virtual”, ou seja, uma operação sutil que marca o espírito do indivíduo e lhe possibilita, através dos esforços pessoais, transformar aquele conteúdo iniciático, transmitido de maneira virtual, em uma realidade existencial (em outras palavras, passar da Iniciação Virtual para a Iniciação Real). Longe de ser algo “líquido e certo” ou mera questão de papelada e burocracia, para que seja, de fato, transmitida a Iniciação ou a Influência Espiritual, há uma série de requisitos tradicionais muito bem determinados para que haja validade espiritual em uma Iniciação por enxertia. Esses requisitos são:

– A Organização em questão deverá, de fato, ser guardiã de um depósito Iniciático VERDADEIRO, ou seja, com origens supra-humanas e imemoriais transmitidas adequadamente, pois sem isso, trata-se de uma pseudo-iniciação que redunda em um puro nada. Aqui cabe frisar que estamos falando de transmissões REAIS e não de papéis, cartas, selos, carimbos, patentes ou reconhecimentos institucionais exteriores;

– A Organização em questão deverá observar todos os requisitos TRADICIONAIS do ritual, sem alterar qualquer parte essencial da forma e mantendo a INTENÇÃO CORRETA. Sem isso, o ritual não tem eficácia simbólica ou, pior, serve de veículo para influências contra-iniciáticas;

– O indivíduo a ser iniciado deverá ser portador das qualificações exigidas para uma Iniciação válida, ou seja, ter qualidades intelectuais para compreender do que se trata, ter pureza moral (não se trata de “moralismo”, mas de questão técnica iniciática), ter condições físicas para a execução dos atos essenciais da ritualística daquela tradição particular, ter a preparação teórica prévia adequada e estar corretamente motivado. Sem a observância CORRETA de todas essas condições, não há “vaso receptor” adequado para a Influência Espiritual e, portanto, não há transmissão iniciática alguma;

– O “hierofante” ou Iniciador deverá ter as condições TRADICIONAIS (as burocráticas pouco importam aqui) para executar o rito.

Sem a observância clara e objetiva desses requisitos, teremos apenas um simulacro que, não só não surtirá efeito nenhum, como poderá servir de suporte para influências psíquicas negativas e contra-iniciáticas.

As aberrações que se veem praticadas por supostos “iniciados” (cuja ação é pior que a do último dos profanos, e cuja incompreensão e confusão a propósito de tudo que é verdadeiramente esotérico e espiritual está muito abaixo de pessoas que, ainda que não tendo recebido nenhuma Iniciação ritual, estão dotadas de uma correta intuição e de um espírito aberto adequadamente), são o amargo fruto dessas pseudo-iniciações e contra-iniciações.

IV. Confusão entre questões burocráticas e questões espirituais

No domínio Iniciático, a hierarquia está formada essencialmente por graus de “conhecimento”, com tudo o que implica essa palavra em seu sentido verdadeiro, ou seja, conhecimento EFETIVO.

Os Graus conferidos em uma dada tradição correspondem a estados e modalidades de estados durante o Caminho. É uma classificação mais ou menos geral, esquemática. Sendo assim, a classificação e repartição dos membros em seus diferentes graus não é mais do que um símbolo em relação à HIERARQUIA REAL, uma vez que as Iniciações Virtuais não coincidem com as Iniciações Reais conquistadas pelo Iniciado.

Sendo assim, um indivíduo que recebeu virtualmente um grau muito elevado pode estar na escalada real em um grau muito abaixo de outro que na escalada virtual está em um grau muito mais baixo que ele. Em outras palavras, um portador do Grau 33 ou 9 (no Rito Moderno) pode, efetivamente, ser muito menor na hierarquia REAL que um simples Aprendiz ou Companheiro Maçom. Isso leva a outra questão: A diferença entre hierarquia efetiva e a hierarquia de funções.

Uma função elevada qualquer dentro de uma Organização Iniciática, ainda que essa dê a faculdade de ensino ou de iniciar a outros, não representa, automaticamente, chefia real do ponto de vista espiritual e efetivo. Um Adepto, ou seja, alguém que atingiu a efetivação de todos os aspectos da Iniciação, ainda que não exerça qualquer função burocrática ou administrativa, estará efetivamente sempre na chefia espiritual daquela tradição à qual pertença. Quando se trata de uma sociedade profana qualquer, a pessoa pode simplesmente se demitir dali e seus vínculos com aquela sociedade estarão rompidos. No caso de uma Organização Iniciática, uma demissão institucional, a perda de cargos, mandatos etc., só tocam os aspectos mais externos da Hierarquia. Formalidades administrativas NADA PODEM contra essa “ordem interior” das coisas.

A efetiva chefia dos verdadeiros Iniciados pode estar bem longe dos aspectos exteriores burocráticos de uma dada Organização Iniciática. Os verdadeiros chefes podem ou não em acordo com sua conveniência estar em cargos administrativos. Sua ação é de presença e só é sentida por aqueles que, em consonância espiritual, reconhecem a “hierarquia interna”.

V. Os sinais de continuidade das “influências espirituais”

A continuidade de influências espirituais é ilusória quando não existem representantes dignos e conscientes de uma dada cadeia de transmissão e quando a transmissão se converteu em algo quase mecânico. Em outras palavras, não adianta conservar mecanicamente Graus, ritos dos quais não se conhece o sentido, insígnias e títulos altissonantes na esperança de substituir com isso o CONHECIMENTO EFETIVO. Isso só serve para transmitir algo degradado, um psiquismo aberto a forças obscuras que é, de fato, mais um perigo do que um socorro, como exemplificamos acima.

Quando nos deparamos com organizações que fomentam o ódio, a subversão, o rebaixamento da dignidade dos indivíduos, a guerra por poderes pífios, por títulos e honrarias vazias, estamos diante de organizações cujo elemento verdadeiramente espiritual se retirou e nas quais o psiquismo serve como instrumento de forças tenebrosas. Lembremo-nos do ensinamento da árvore e dos seus frutos:

O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der                                                        bom fruto será cortada e lançada ao fogo.” (Mt. 3,10)

 

Considerem: Uma árvore boa dá fruto bom, e uma árvore ruim dá fruto                                                    ruim, pois uma árvore é conhecida por seu fruto.” (Mt. 12,33)

 

Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e                                                      libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo,                                                      dissenções, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes.                                                          Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas                                                            coisas não herdarão o Reino de Deus.

                                                      Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade,                                                            bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas                                                               não há lei.” (Gl.5, 19-23)

A nós fica claro que grupos que vivem de atacar pessoas, que tentam difamar, diminuir, zombar, qualificar a quem não conhecem (e a quem por dever de ofício chamam de “irmãos”) como “espúrios”, “profanos”, “estelionatários”, “vendedores de graus” ou outras coisas do gênero, tentando legitimar a si próprios com cartas, reconhecimentos, selos etc., estão muito distantes de qualquer influência espiritual ou de qualquer Iniciação, agindo de maneira muito pior que profanos, servindo de veículo a forças obscuras e arrastando consigo aos incautos para o fundo do abismo, deslumbrados com a luz que se reflete no espelho das águas profundas. Esses mesmos beijam a Bíblia onde se lê:

 

Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de                                                           ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão                                            por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de                                                          ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas                                               a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins,                                                            nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz                                                            bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês                                                            os reconhecerão.” (Mt. 7, 15-20)

 

Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por                                                           seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade                                                            que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam no coração inveja                                                    amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a                                                         verdade. Esse tipo de “sabedoria” não vem dos céus, mas é terrena; não                                                       é espiritual, mas é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí                                                    há a confusão e toda espécie de males.

                                                      Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica,                                                      amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial                                                e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores.

                                                      De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das                                                           paixões que guerreiam dentro de vocês? Vocês cobiçam coisas, e não as                                      têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês                                                     vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem. Quando                                                        pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em                                                                          seus prazeres.” (Tg. 3, 13-17, 4,1-3)

 

VI. Conclusão

Aos que buscam a Verdadeira Iniciação, fica a advertência. Não se engana às Influências Espirituais com colecionismo de graus e diplomas. Por mais “reconhecidos” que sejam na ordem exterior das coisas, não valem nada no domínio sutil da Iniciação. Ou, pior, podem acabar conduzindo os incautos à ruína espiritual.

Lidar com forças sutis com irreverência, desconhecimento e desrespeito conduz ao caos interior. O brilho dos cargos, dos paramentos enfeitados, o respeito artificial produzido pelos séquitos de áulicos etc., pode ser facilmente utilizado para conduzir aos mais baixos níveis de decadência interior.

Os simulacros de Iniciados e de Iniciadores, a festa de mesuras desmerecidas e as brincadeiras com o desconhecido trazem consequências. Para comprovar a realidade desse fato, basta prestar atenção ao comportamento e às consequências desse comportamento para a qualidade humana de certos indivíduos que se pretendem “Grandes Iniciados” e “Autoridades. A ignorância, a insensibilidade, a cegueira espiritual, a ganância e a arrogância desses seres diz muito sobre o tipo de influência trevosa que atua sobre seus espíritos. O tipo de ambiente que se forma à sua volta também: bebedeiras, vícios, orgias, falcatruas, brigas, mentiras, ambições…Ou alguém em sã consciência acredita que essas coisas acompanham às obras da Verdade e do Bem?

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